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Análise
do estudo "gasto social do governo central: 2001 e 2002" José
Maria Miranda Luna, Pedro Onofre Fernandes Auditores-fiscais
da Receita Federal Rodrigo
Vieira Ávila Economista
Em
12 de novembro de 2003, o Governo Federal divulgou estudo reproduzindo um argumento
da equipe econômica de FHC: o de que o problema do orçamento público
não está nos gastos financeiros, mas na má distribuição
dos gastos sociais. O estudo repete o falacioso argumento de que o grande vilão
das contas públicas é o pagamento de aposentadorias e pensões
dos servidores públicos. No documento, afirma-se que o superávit
primário é necessário para a realização de
uma política macroeconômica responsável, necessária
para que haja garantia de proteção social para toda população,
especialmente para os mais pobres. Em outras palavras, o estudo afirma,
curiosamente, que os vultosos gastos com os juros da dívida pública
beneficiam a população mais carente. O governo federal afirma
que os gastos sociais (considerados no estudo como previdência e assistência
social, saúde, educação, cultura, moradia, habitação,
saneamento básico, amparo ao empregado e organização agrária)
consumiram em 2002 R$ 182 bilhões, ou seja, 77% da despesa primária
da União. Porém, nas despesas primárias não estão
incluídas as despesas com juros da dívida pública, que em
2002 foram estimadas pelo Banco Central em R$ 190 bilhões (incluindo as
despesas dos estados e municípios, cujas dívidas foram e
continuam sendo estimuladas pela política de juros altos do governo
federal). Acrescentando-se este dado ao cálculo, veremos que os gastos
sociais representaram, na verdade, menos que os gastos com a dívida. Raciocinando
sem considerar as despesas com juros, os autores do estudo seguem manipulando
grosseiramente os dados do orçamento, no sentido de atribuir aos gastos
sociais os males do país. Observamos também que, em 2004, o país
deverá pagar nada menos que R$ 1,088 trilhão em amortizações
da dívida pública, o que apenas pode ser pago com a emissão
de mais títulos. Estes dados também são completamente omitidos
no documento sob análise. Apresentaremos, agora, os principais pontos
desse estudo, seguidos de nossos comentários.
O gasto social está crescendo? O documento afirma que o gasto
social está crescendo, a partir do seguinte gráfico: Em primeiro
lugar, interessante observarmos que no próprio texto do estudo, o Ministério
da Fazenda afirma que o gasto social direto (ou seja, todas as áreas
sociais listadas anteriormente) em 2002 foi de 13,8% do PIB, e não 14,2%,
como sugere o gráfico acima. Em segundo lugar, o gráfico está
com a escala distorcida, ou seja, pequenas variações no gasto social
aparentam ser muito grandes. Se tomarmos os dados constantes na Secretaria do
Tesouro Nacional referentes às áreas sociais (listadas acima) desde
1995, e dispusermos estes valores em uma escala real, veremos que a tendência
não é de aumento, e sim de estagnação. Os gastos sociais
em 2003 foram ainda menores que em 1999. Observamos
que o gasto social aumentou apenas 0,71% do PIB nos últimos oito anos.
Os dispêndios com saúde e saneamento caíram de 2,29% para
1,8% do PIB, enquanto os com educação caíram abruptamente,
de 1,45% para 0,95% do PIB. O único gasto que apresenta crescimento é
o referente à Previdência (de 8,14% em 1995 para 10,16% do PIB em
2003). O governo procura culpar os servidores públicos civis por isso,
porém, os gastos com as aposentadorias e pensões desses servidores
se reduziram de 1,64% do PIB em 1995 para 1,47% em 2002, segundo o próprio
Ministério do Planejamento. Mesmo o aumento dos gastos com servidores militares
(que passaram de 0,70% para 0,95% do PIB no mesmo período) responde apenas
por uma pequena parte do aumento dos gastos com a Previdência. A parcela
de 2,02% do PIB adicionada aos gastos com a Previdência de 1995 a 2003 decorre
dos gastos com os aposentados do setor privado (atendidos pelo Regime Geral de
Previdência Social RGPS). Apesar de o governo federal alegar que
esta é a prova do desequilíbrio das contas da Previdência,
é importante ressaltar que uma parte dos benefícios do RGPS corresponde,
na verdade, a aposentadorias concedidas a pessoas que não contribuíram
para a Previdência, ou seja, não são aposentadorias, no sentido
estrito do termo, mas benefícios de natureza assistencial, os quais não
podem integrar o cálculo do suposto déficit alegado
pelo governo. Interessante observarmos que, atualmente, retiradas as despesas
com este tipo de aposentadoria assistencial, o déficit do RGPS
desaparece. Além disso, boa parte das receitas da Previdência é
desviada para o superávit primário por meio da Desvinculação
das Receitas da União (DRU), dado também omitido no estudo. Ora,
se o governo diz que a Previdência é deficitária, como se
justificariam tais desvios? Quando analisamos os gastos sociais como percentagem
da arrecadação federal, a prioridade ao pagamento dos juros da dívida
fica evidente, conforme o gráfico abaixo. Vendo o gráfico, fica
óbvio que o aumento da carga tributária federal no período
foi destinado para o pagamento de juros da dívida. Em 1995, 100% da receita
do governo ia para gastos sociais. Em 2003, apenas foram destinados para estas
áreas 75,59% da arrecadação. Tal análise é
importante, pois quando se fala em gastos sociais, não se pode
considerar apenas os dispêndios do governo, mas também deve ser levada
em conta a sua arrecadação, ou seja: quem está pagando a
conta. A arrecadação federal (exclusive Previdência) aumentou
em mais de 5% do PIB de 1995 a 2003 (tendo passado de 13% para 18,04%), sendo
que a maior parte deste aumento se deveu à elevação da tributação
sobre o consumo e à tributação das pessoas físicas,
principalmente por falta de correção da tabela do Imposto de Renda
e pela manutenção da alíquota de 27,5%. Hoje, os tributos
sobre o consumo respondem por 70% da carga tributária brasileira, e são
suportados principalmente pelos trabalhadores e consumidores de baixa renda que
gastam quase toda a sua renda com a compra de bens para a sua sobrevivência. Apenas
o aumento da arrecadação proveniente da Cofins, da CPMF e da Cide
repassadas aos preços dos produtos, e pagas pelos consumidores
de 1995 a 2003 respondeu por um aumento de 3,5% do PIB1 , ou seja, seis vezes
mais que o aumento dos gastos sociais nos últimos oito anos. Conclui-se
assim que os trabalhadores estão perdendo cada vez mais com a política
de ajuste fiscal. O
gasto social é mal direcionado? O documento do Ministério
da Fazenda afirma que os gastos com a área social são mal distribuídos.
Setenta e três por cento dos gastos sociais são destinados à
Previdência que, segundo o estudo, estão concentrados no pagamento
de uma minoria mais rica da população. Segundo o gráfico
do governo, 15% dos aposentados e pensionistas recebem 85% dos recursos previdenciários.
Porém, o governo mistura num mesmo gráfico aposentadorias do setor
privado com as do setor público, não considerando que os trabalhadores
do setor público contribuem sobre a remuneração integral.
O governo também não considera o enxugamento brutal no número
de servidores em atividade, que caíram quase à metade do efetivo
de 14 anos atrás, reduzindo-se o montante arrecadado a título de
contribuições. O estudo também omite o fato de que o serviço
público é, por natureza, qualificado. Enquanto 60% dos servidores
possuem curso superior, apenas 2% dos trabalhadores do setor privado possuem formação
universitária. Em vez de oferecer educação de qualidade para
todos os brasileiros, o governo federal prefere acusar de privilegiados os que
possuem qualificação profissional. Além disto, omite-se completamente
o fato de que 63% dos aposentados e pensionistas do setor privado ganham um salário
mínimo em virtude da contínua defasagem dos benefícios
diante da inflação nos últimos anos, e por causa da
concessão, a partir da Constituição de 1988, de milhões
de aposentadorias rurais ou assistenciais de um salário mínimo
(valor que apenas é suficiente para reduzir a situação de
miséria em que se encontram os milhões de brasileiros beneficiados
por este programa). Ora, não se pode comparar os benefícios miseráveis
ganhos pelos idosos no Brasil com as obtidas pela classe média brasileira.
O que pretende o governo? Que todos ganhem o miserável salário mínimo
do Brasil? A renda é distribuída apenas por meio dos gastos estatais? O
governo federal afirma, em seu estudo, que a estrutura tributária brasileira
é injusta e regressiva, baseando-se no seguinte gráfico: O gráfico
mostra a parcela da renda (eixo vertical) que é gasta no pagamento de tributos
por cada classe de renda (eixo horizontal). Observa-se que as parcelas mais ricas
da sociedade pagam menos tributos do que a classe média. Isto ocorre devido
aos tributos incidentes sobre o consumo, que oneram muito mais os pobres. Em seu
estudo, o Ministério da Fazenda diz que o sistema tributário no
Brasil é injusto, imperfeito, com alta incidência de tributos indiretos,
que acabam por promover a regressividade no sistema. Isso não é
novidade. Há muito tempo, o Unafisco Sindical vem alertando a sociedade
para esse fato, por meio de diversos estudos, como, por exemplo: A tributação
da Distribuição dos Lucros no Brasil, Juros sobre o
Capital Próprio e O Princípio da Progressividade no
Imposto de Renda, cujos textos estão disponíveis em nossa
página na Internet. Também servem de exemplo os gráficos
abaixo reproduzidos, extraídos de trabalhos elaborados pelo Sindicato,
que mostram o quanto o Brasil onera o consumo, ao mesmo tempo em que tributa pouco
a renda e o patrimônio. Tais gráficos, publicados originalmente nos
documentos Reforma Tributária Voltada para a Cidadania e Reforma
da Previdência - Que a Justiça e a Coerência Prevaleçam,
mostram não só a exagerada participação de impostos
indiretos na carga tributária, como o tratamento tributário benevolente
concedido, nos últimos anos, aos rendimentos de capital: Porém,
inexplicavelmente, em nenhum momento, o documento oficial afirma que, para corrigir
esta situação, deve ser feita uma reforma tributária caracterizada
pela progressividade e pelo fim dos privilégios fiscais dos setores verdadeiramente
mais ricos da sociedade (como, por exemplo, o setor financeiro). Além disso,
a reforma tributária proposta pelo Poder Executivo, e aprovada em 2003,
não reduz os tributos indiretos, apresentados como injustos
no estudo. O governo prefere culpar uma suposta má alocação
dos gastos sociais pela concentração de renda no país. Comparações
com países do Primeiro Mundo O
Governo Federal afirma ainda que as transferências governamentais aos brasileiros
(aposentadorias, programas de renda mínima, etc.) estão direcionadas
para as classes mais ricas da população, contrariamente aos países
desenvolvidos. O gráfico 13 da p. 16 do estudo (reproduzido abaixo) compara
a situação brasileira com a inglesa. Diz o estudo que, no Brasil,
a classe de renda mais alta recebe muito mais transferências (principalmente
aposentadorias) do que a classe mais rica inglesa (o estudo também faz
esta comparação com os EUA e a Espanha). Porém, além
da argumentação desenvolvida anteriormente, deve ser observado que
não se pode comparar o recebimento de transferências entre países
tão distintos. Isso pois, nos países desenvolvidos, os serviços
públicos (como educação e saúde) são de muito
melhor qualidade que no Brasil, dispensando a classe média do pagamento
desses serviços. É importante dizer isto, pois boa parte do decil
mais rico brasileiro faz parte, na verdade, desta classe média. O Brasil
deve reduzir os gastos com aposentadorias? No gráfico 16 da p. 18 do
estudo, afirma-se que o Brasil, apesar de possuir uma proporção
da população com mais de 65 anos bem menor que a dos países
desenvolvidos, gasta como percentagem do PIB - com aposentadorias e pensões
o mesmo (ou até mais) que estes últimos países. Porém,
o governo omite o fato de que a expectativa de vida no Brasil é muito menor
que nos países desenvolvidos. O governo também omite o fato de que,
nos países desenvolvidos, boa parte das aposentadorias foram privatizadas,
passando a ser regidas pelos fundos de pensão, hoje altamente questionados
diante das crises financeiras internacionais (nos últimos anos os fundos
de pensão perderam 1,4 trilhão de dólares, gerando o que
nos EUA foi denominado de crise da aposentadoria). Deduções
do IRPF: gasto social? No estudo, o governo ainda considera como gasto
social as deduções do IR das pessoas físicas referentes
a gastos com saúde e educação privadas. Como se não
bastasse o governo não prover serviços públicos de qualidade,
ele ainda usa, em seu estudo, uma metodologia que considera que a classe média
usufrui dos recursos do Estado, pois ela pode deduzir do IR as suas despesas!
Não se pode esquecer que essas deduções estão em perfeita
consonância com os princípios da capacidade contributiva e da personalização
do imposto, consagrados no artigo 145, § 1º da Constituição
Federal. Além disso, a eliminação ou redução
das deduções faria com que o imposto de renda incidisse sobre os
rendimentos brutos, contrariando assim a própria configuração
do imposto. Conclusão Diz o estudo: Portanto,
a possibilidade de o governo reduzir a carga tributária ou mesmo de mantê-la
no atual patamar, sem comprometer o ajuste fiscal e a estabilidade da economia,
depende fortemente de sua capacidade de reformar o gasto social, reduzindo a proteção
exagerada que atualmente prover (sic) para um pequeno segmentos (sic) da sociedade
e redirecionando os recursos para o atendimento das demandas sociais mais básicas
e urgentes. É bastante significativo que o relatório ora
analisado eleja como causas de distorções do gasto social
a previdência social, as universidades federais e as deduções
do imposto de renda, pontos sugeridos ou impostos pelo Banco Mundial ao governo
federal. O documento do Ministério da Fazenda prefere ignorar que a
maioria dos recursos está sendo direcionada para o pagamento dos juros
da dívida, enquanto a maior parte da nossa carga tributária está
sendo paga pelos mais pobres. E que a alternativa mais lógica seria, então,
reduzir os gastos com juros e fazer com que os principais beneficiários
desta política de endividamento paguem de acordo com a sua capacidade contributiva.
Ao contrário, o governo federal insiste em afirmar que há apenas
uma única saída: reduzir os gastos sociais, focalizando-os apenas
para permanecer eternamente salvando da fome os miseráveis deste país,
enquanto os banqueiros seguem batendo recordes de lucratividade.
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